terça-feira, 22 de setembro de 2015

Um dia que valeu a pena ter vivido

Rio de Janeiro, quinta feira, 37 graus. O corpo ardia de calor enquanto os ombros carregavam um peso maior do que eu conseguia suportar. Ponte Rio-Niterói, Centro, Praça da Cruz Vermelha, INCa. Tudo era novo embora já fizesse parte da minha rotina a mais de dois anos. Sentei-me no corredor em um lugar onde eu não tivesse muito contato com as pessoas. Não queria ver ninguém. Algum tempo depois, a recepcionista chama meu nome no microfone e anuncia o corredor e sala que eu deveria entrar. Meu tio queria entrar comigo mas eu precisava ir sozinha. Ao entrar no consultório minhas mãos suavam muito e meu corpo inteiro ficou gelado. Antes de qualquer coisa, a médica veio realizar uma punção no meu pescoço pra eliminar o restante de seroma da cirurgia e depois com a maior naturalidade do mundo me pergunta: "você tá esperando o resultado de uma biópsia, né?". Claro que eu estava ali pra pegar o resultado da biópsia. Mas me contive, estava nervosa. Ela passou os olhos no meu exame e em questão de minutos falou: "Olha, não tem nada de câncer no seu corpo não." Desabei na hora. Não me contive. Aliás, ainda não me contenho quando me lembro disso. O peso que eu carregava nas costas saiu na mesma hora e eu sorri. Sorria e chorava. E sorria de novo. E pedia desculpa. E chorava. E pedia mais desculpas por estar chorando. E assim eu fui me acalmando, tomando consciência do que tinha acontecido e começando a acreditar que eu estava saudável. Eu saí dali renovada, alegre, feliz, louca pra fazer planos, pra viver pra (re)começar. Foi um dia que valeu a pena viver porque ali eu sabia o que estava em jogo e o prêmio desse jogo era o mais valioso que eu poderia dar: a minha vida. E eu venci. E eu venho vencendo dia após dia, batalha após batalha. E venho me lapidando, me aperfeiçoando e me satisfazendo. Viver é uma dádiva. 

domingo, 13 de setembro de 2015

Regras de etiqueta

Sabe, acho válido falar muito sobre como vive um paciente de câncer porque o câncer faz parte da rotina de todo mundo. Vai me dizer que você nunca conheceu alguém que tivesse câncer? Sabe, já passei por muitas situações engraçadas ao longo da minha caminhada. Digo engraçada porque eu tenho a habilidade de encarar tudo com muito bom humor, mas nem todo mundo encara assim. Então, é legal vocês saberem o que podem ou não dizer pra uma pessoa que se encontra nessa situação. Vamos lá:

* "Você tem câncer? Meu Deus! Tão novinha, com a vida toda pela frente.."
Ter câncer não é nenhum bicho de sete cabeças. Qualquer pessoa pode ter. E ele não escolhe cara muito menos idade. E por não ser um diagnóstico de morte (sempre falo isso aqui), não precisa ficar se lamentando pela pessoa ou por coisas que nem aconteceram. O câncer quando é diagnosticado na fase inicial tem grandes chances de cura, ok?? PACIENTE DE CÂNCER NÃO É COITADO!!!!

* "O cabelo caiu,mas ele não é importante. O importante é ter saúde"
Ok, a gente sabe que o importante ter saúde. TODO MUNDO SABE DISSO!!! MAS TER CABELO É ESSENCIAL e não me venha falando que não é quando os seus não caíram. Perder os cabelos é doloroso, é humilhante e ninguém gostaria de perder. 

* "Você tem câncer, né? Minha tia morreu de câncer."
Tudo bem sua tia ter morrido de câncer, mas eu não preciso saber disso, né coração? Se o paciente fica um pouco mais sensível, ao ouvir uma coisa dessas, ele até desiste do tratamento. Se não tiver coisas boas pra falar, não fale nada. A gente sabe que a sua intenção é boa, mas nem sempre funciona. Na dúvida, fique quietinho.

* Ao ver uma pessoa careca e de máscara, SENTE-SE DO LADO DELA! Câncer não se pega, não é transmissível. Uma das coisas que mais doem é quando a gente sai pra algum lugar e percebe que as pessoas não querem ficar perto da gente por medo.

* NÃO CHORE PERTO DA GENTE!!!!!!!!!!Ai, gente, essa é a pior de todas!!! Tá, a gente tem uma doença complicada e você está triste. Isso é normal. Mas o que a gente menos precisa nesse momento é de gente mais frágil emocionalmente que a gente. Quer chorar? Vai num cantinho, seja discreto.

* Quer ajudar e não sabe como? DOE SANGUE, DOE MEDULA, DOE PLAQUETAS!!! Você pode não se tocar, mas MILHARES de pessoas morrem diariamente por falta de sangue. Vocês tem ideia da dor que é perder um amigo porque ele não tinha doador de medula compatível? Eu sei..

Seja gentil, faça o bem. 

sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Qual o sentido da vida?


Eu me lembro a primeira vez que pensei a respeito dessa pergunta. Tinha uns 15 anos e me desesperei com o choque de realidade que um dia eu ia morrer, que as coisas acabam, que a morte chega pra todo mundo. Fiquei sem ar nesse dia. E diante desse questionamento e da inquietação que ele causou (e ainda me causa) refleti durante muito tempo em cima disso. Já parou pra pensar que você estar aqui, vivendo nesse tempo, com as pessoas que fazem parte da sua vida, ou que a sua própria vida tem um propósito? Então. Eu nunca fui a melhor aluna do ensino médio, sempre fui péssima em matemática e odiava acordar cedo. Eu na verdade sempre achei que nunca fui suficientemente boa em nada na minha vida.
Estou tendo um péssimo pós operatório. O pescoço está muito inchado, senti falta de ar, dor, e um incômodo que não me deixa dormir. Diante do quadro e do medo, resolvi que amanhã eu volto para o hospital pra ter uma avaliação médica sobre isso. E aí, enquanto eu não fazia nada hoje durante o dia, acho que descobri no que eu sou verdadeiramente boa. Eu sou boa em sobreviver. Durante toda a minha vida eu tenho sobrevivido. Ao problema no coração quando eu era criança, aos tombos de patins no asfalto, da vez que tomei remédio enganado e quase tive uma parada cardíaca, as crises alérgicas, ao câncer, a vida. E aí eu percebi que eu sou muito boa em dar meu jeito e em sempre enxergar uma alternativa pros problemas. Já fazem mais de dois anos que estou indo ao inca. Dois anos lidando com um diagnóstico de câncer. E aí eu descobri que eu sou muito boa em emendar a corda que sempre fica bamba pro meu lado. Que eu consigo atravessar uma ponte de madeira podre e corda arrebentando com tranquilidade. Não por não ter medo mas por esperar sempre chegar do outro lado. Tem vezes que tudo que eu queria era nunca ter vivido o que eu to vivendo. Tá doendo na alma essa rotina cansativa, pesada e dolorosa. Mas, que direito eu tenho de fraquejar? 
Qual o sentido da minha vida? Vai ver o sentido da vida seja apenas continuar seguindo, mesmo sem saber pra onde se vai. O importante é ir. E eu tenho ido. Algumas vezes passando por caminhos tortuosos como os de agora, as vezes passando por um campo de flores com borboletas. Vou indo. Vou curtindo o caminho. Um dia, mesmo eu não sabendo bem ainda, vou ter certeza que cheguei exatamente onde eu deveria ter chegado. O sentido da vida é sentir. E sentir engloba dor, alegria, amor, raiva e todos os outros sentimentos possíveis. Não me travo para nenhum deles. Sou humana. Sou errante. Mas também sou aventureira e adoro um desafio. Talvez o câncer tenha voltado. Talvez eu não escape dele se ele tiver voltado. Mas vou sempre esperar o melhor da vida e jamais quero olhar pro lado ruim das coisas. E em meio a lágrimas, pés cansados e uma esperança muito grande na vida eu começo a me recompor pra enfrentar mais uma vez o longo caminho. Falta muito ainda, mas se eu olhar pra trás, olha quanta coisa eu já andei? 

O sentido da vida. É sentir a vida.