terça-feira, 28 de julho de 2015

Do que você tem medo?

O medo faz parte da vida e em alguns casos é o que nos mantém vivos. Mas, conviver com o medo é algo muito, mas muito desconfortável. Viver se preocupando, não sabendo o que vem a seguir, medo da morte, medo de escuro, medo da doença voltar. O câncer não termina depois do fim das quimioterapias. Você tem que cumprir uma série de compromissos com o seu oncologista mensalmente, depois trimestralmente e depois semestralmente. Nunca cheguei na parte dos 6 meses, porque todas as vezes que eu quase chegava, sempre aparecia alguma suspeita de alguma coisinha que me fizesse sempre ter que voltar ao hospital. Hemogramas, horas esperando para ser consultada já fazem parte da minha rotina e nem me incomodam mais. Agulhas, o cheiro do álcool, pessoas com dor, carecas, angustiadas, crianças com leucemia e enxergar câncer por todo lado já foi mais assustador. Hoje, eu tive que retornar ao hospital onde tudo começou pra enfim realizar o ultrassom do linfonodo sub-mandibular. Me lembro perfeitamente da consulta em 2013 quando o médico mostrando a minha chapa de raio-x falava dos nódulos no meu pulmão e de como eles estavam grandes. Eu, no corredor desesperada sem poder controlar as lágrimas, as pernas tremendo, o coração batendo muito forte são coisas que realmente não foram fáceis de passar. Tudo depois daquele choque inicial foi mais fácil - ou menos difícil. Hoje, no mesmo corredor, as mãos ainda tremiam e na hora do exame o coração bateu bem forte. O caroço mede 2cm. Isso é muito comparado ao primeiro que media 1,5cm. Se é câncer de novo? Não sei. Pode ser tanta coisa antes do câncer. Talvez na consulta da semana que vem eu tenha que fazer uma biópsia ou uma punção pra determinar o que pode ser, mas, talvez a médica só olhe pra mim e diga: não é nada, volta daqui a 3 meses. Sofrer por antecedência não leva ninguém a lugar nenhum. Eu torço sempre pelo melhor pra mim.

quarta-feira, 22 de julho de 2015

Eu venci

Vencer está muito mais relacionado a fazer das tripas coração pra conseguir algo do que apenas esperar que as coisas aconteçam. Quando eu descobri a doença eu poderia ter ficado me lamentando. Seria bem mais cômodo que lutar por cada dia de vida, porque a vida é um jogo que não te dá certeza de vitória. Ter câncer é a mesma coisa que jogar campo minado no computador. Você não sabe se seu próximo passo vai ter uma mina pra te destruir. Ter câncer me amedrontou, me fez enfraquecer, me fez querer apenas morrer para que tudo acabasse logo, me deixou em ruínas. Fui ao fundo do poço e lá fiquei por bastante tempo. Quando me apeguei a vontade de viver, consegui sair da escuridão e a luz da vida ofuscou meus olhos com o seu brilho. E eu passei a enxergar a luz ao invés das sombras e perceber que a vida valia a pena. Valia a pena arriscar. Valia a pena jogar. E assim, dia após dia, batalha após batalha, algumas muito dolorosas, eu fui me reerguendo, provando pra mim que eu era capaz, que a dor não era em vão, que o câncer veio como forma de aprendizado, que eu ia sobreviver. E as chances mínimas aumentavam dia a dia até que quando eu dei por mim, já tinha acabado. Por mais que eu escreva, nunca vou conseguir expressar de fato o que foi esse período da minha vida. Só sei que acabou, o tempo passou, e quem diria que hoje, quase dois anos depois de tudo, eu estou viva, saudável e podendo pensar em futuro novamente? Eu não perdi essa batalha porque percebi que a cura sempre esteve comigo e eu era suficiente pra enfrentar esse desafio. Eu venci o medo, eu venci o cansaço, eu venci a vontade de morrer, eu venci o câncer. Se eu tenho medo que ele volte? Quem não teria? A diferença agora é que eu sei que jamais vou desistir do jogo mais arriscado e emocionante de todos que se chama vida.

segunda-feira, 6 de julho de 2015

Dias de tempestades

Dias de tempestades também podem ser lindos. Aqueles dias que a gente olha o céu e o sol nem se mostra timidamente, ou não faz calor, ou o vento assovia também são dias bonitos. Não há necessidade de enxergar tristeza neles. A vida da gente deve ser vivida como o tempo: uns dias devem ser bem quentes e ensolarados, outros devem ser bem cinzentos e nebulosos e ainda há aqueles dias em que amanhece nublado mas depois faz o maior sol.
Não há dificuldade que não possa ser vencida, não há medo que não possa ser destemido, não há vento que derrube o que a gente é quando a gente se transforma numa bela árvore com raízes fortes.

Aprender a admirar os dias de tempestades é um grande aprendizado. E entender que esses dias também fazem parte da maior brincadeira de todas que se chama vida faz com que o coração se amenize e a chuva passe rapidinho. Só podemos ver o arco-íris depois que a chuva passa.


O câncer não precisa ser um diagnóstico de morte. Só de uma tempestade que logo passa.

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