sábado, 27 de dezembro de 2014

Sobre ter um ano novo

1 ano são 365 dias, não vou contar quantas horas e muito menos os minutos. Todo o fim de ano é a mesma coisa. Todo fim de ano a vida se repete e eu fico me perguntando: a gente de fato entra num novo ano? Quer dizer, deixo de lado todo o ritual de passagem que envolve o calendário, quantas vezes o planeta se move ou sobre as fases da lua.

Todo mundo quer um ano novo mas ninguém quer deixar o passado morrer. É a lei natural da vida. Pra um ano nascer, outro deve morrer. 

Poucos estão dispostos a esquecer as mágoas, os problemas, consertar os erros ou pelo menos tentar acertar. Poucos estão dispostos a enfrentar uma vida nova e desconhecida. Poucos não tem medo.

2015 vai ser um ano novo porque desde 2013 estou presa no mesmo círculo que envolve câncer, graduação, pedir o mesmo hambúrguer sempre e ouvir Norah.

Quero um ano novo levando na bagagem apenas o que é leve pra carregar nas costas. Os erros, o medo, a doença e tudo que me fez mal eu deixo pra trás. Não se preocupe se demorar um pouco pra conseguir fazer isso. Você terá 365  chances pra acertar. 

quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Rememorar

1 ano e 7 meses me separaram da mesma cena. Há 1 ano e 7 meses atrás eu tava cheia de medo entrando naquele mesmo centro cirurgico, com a luz branca queimando os olhos e ouvindo dos médicos: "Isso daqui é pra te ajudar a ficar boa logo". Eu senti medo, insegurança, vergonha por estar na situação de doente e triste por saber que dali em diante eu ia ter uma cicatriz nada discreta no peito. O tempo passou, eu aprendi muito, cresci muito e essa semana, enfim, eu retirei o cateter. Pode parecer loucura, mas nos dias que antecederam a retirada, eu fiquei um pouco deprimida por saber que em breve eu encerraria essa fase da minha vida. Eu tenho muita dificuldades em lidar com mudanças e com isso não seria diferente. É difícil aceitar que o câncer passou, que eu tô cheia de saúde e tenho uma vida toda pela frente pra encarar. Ter que entrar novamente no centro cirúrgico me fez relembrar tudo que eu vivi nesses dois últimos anos e a sensação de alívio e liberdade não dá nem pra explicar. Os pontos estão doendo, mal consigo mexer meu braço mas eu tô numa alegria imensa por saber que o "até breve" que eu dei pra médica há quase dois anos atrás chegou. O câncer passou. Tudo de ruim passou. Tô na estação das flores!

segunda-feira, 1 de dezembro de 2014

Oi, dezembro

Dezembro é mês de calor, de praia, de chuvas no fim de tarde, de manga, de natal, de virada de ano e de fim de cateter. Sim, marquei enfim a retirada do meu cateter pro dia 26 de dezembro. Todo mundo falou que eu escolhi uma péssima data, que era pra deixar pra janeiro. Mas eu não quis esperar. Quero começar 2015 sem nenhum resto de lembrança de quimioterapia no meu corpo. Vai ser o meu melhor presente de natal de toda a minha vida! Imagina só, passar a virada do ano só querendo paz, amor, alegria, e deixando um pouco de pensar na fragilidade da doença pedindo apenas saúde. Se chover na virada, vai ser melhor ainda, porque eu vou tomar o melhor banho de chuva da minha vida! 

Aconteceu muita coisa desde o começo de 2013 na minha vida e eu passei esses dois anos vivendo em torno disso. Vai ser muito bom pensar em 365 dias normais, comuns, sem me importar com uma coisa tão séria. Vai ser muito bom voltar a ter 23 anos e virar as noites com os amigos nas festas. Vai ser muito bom viver de novo. Viver intensamente. Viver sem me preocupar em morrer.