sábado, 31 de maio de 2014

Por Juliana Lyra, amiga pra todas as horas.

Recebi um convite para escrever no blog de uma amiga. Como se eu tivesse talento para tal. Mas aceitei o convite, claro. Logo em seguida acessei seu blog para ver as postagens, havia um tempo sem lê-las. E, por um acaso, recordei que essa amiga tem um câncer. Aliás, me permita: teve um câncer. Fiquei pensando na diferença que isso faria no momento de eu escrever pra ela. Deveria falar do câncer? Do tempo descobrindo a doença? Dos dias ruins? Mas realmente não consegui identificar. Escreveria pra ela, pensei, o mesmo que escreveria para uma outra amiga que não tivera tal doença. Entretanto lembrei que, de fato, somos muito diferentes. Eu, ela e o resto do mundo. Obviamente não escrevia o mesmo. E qual graça a vida teria se todos gostassem das mesmas coisas, me pergunto. A graça é ela achar que um rock no volume máximo a acalma e eu simplesmente achar essa ideia péssima. Ou mesmo eu degustar da melhor forma um chopp e ela não conseguir compreender o gosto bom que a cevada tem. Que delícia nossas diferenças. Uma com manias de cidade grande e outra de cidade pequena. Aprender e ensinar: isto é o que dá a cereja do bolo. E eu sei que toda a vivência longe de casa vai valer a pena. Ainda vão passar muitas estrelas cadentes. Um mundo de alternativas. Esta experiência faz com que nos (re)descubramos todos os dias. Surpresas diárias. É incrível como trazer a teoria para prática do dia a dia é um árduo trabalho. A maneira como produzimos um sentido, uma comunicação, um sentimento, um pensamento. A maneira como falamos, como nos dirigimos umas às outras. Definitivamente lidar com seres humanos não é uma tarefa fácil, porém é o dever de casa que nos foi passado como futuras sociólogas: Estudar o comportamento humano em relação ao meio em que vivem. Mas como sabemos que não é fácil relativizar sempre e problematizar todas as questões, permitimos alguns erros sem culpa e, desta forma, aderimos a liberdade de errar. Assim vamos levando nossos dias. Estar ao lado dela é verdadeiramente agradável.  Ah! Por fim gostaria também de dar meus sinceros parabéns pela força e coragem durante este espaço de tempo meio nublado: Só pra não dizer que eu não falei do câncer.


Juliana Lyra – Campos, 28-05-2013.

quarta-feira, 28 de maio de 2014

De quem é a culpa?

Quando eu comecei o meu tratamento do câncer, estava ciente que sofreria muitas mudanças no corpo e na mente, mas nunca imaginei que sofreria mudanças sociais também. Quando eu fiquei careca, as pessoas me olhavam com ar de susto e pena. Quando eu usava máscara nos lugares, ninguém queria sentar do meu lado porque, imagino eu, pensavam que eu tinha alguma coisa contagiosa. Alguns "amigos" enviavam mensagens me mandando ter força mas diziam que "não estavam prontos pra lidar com essa situação". Quando eu estava inchada sem caber em nenhuma roupa, ouvi de um babaca: "Depois que você ficar curada vai voltar a ser linda, aí a gente pode conversar". Ainda enquanto eu fazia quimio, voltei pra faculdade e comecei a procurar algum emprego, não só pelo dinheiro, mas pra ter a certeza de que a minha vida estava voltando ao normal. No meio de tudo isso, consegui em estágio bem bacana. A minha supervisora disse que me escolheu porque achou fantástica a minha história e a minha força de vontade. Nem deu pra ficar muito no estágio porque a minha imunidade tava super baixa e isso tava me fazendo mal. Mas, depois que as quimios acabaram, que meus cabelos estavam maiores, que eu tava de volta toda saudável, tive que ouvir de alguns entrevistadores para vagas de empregos coisas como: "Mas você tem esse cabelinho muito curto pra uma menina, né?" ou então: "Seu currículo é muito bom, mas você acabou de ter um câncer, né?". Sabe, no meio dessa enxurrada de preconceito em cima de mim, eu fico aqui me questionando sobre de quem é a culpa. Não apenas por mim, mas em nome de todas as pessoas que sofrem com o mesmo tipo de discriminação que eu, ou então por ser negro, ou por ser homossexual ou por qualquer outra coisa. De quem é a culpa? Por que ainda temos que sofrer com tanto ódio, com tanto preconceito? Por que temos que levantar a bandeira de diferentes? Por que não nos aceitam como pessoas normais? A culpa é minha? Que culpa eu tive por ter um câncer? A culpa é do câncer? A culpa é sua? Conhecendo bem o país que eu vivo, só posso concluir que tudo isso que eu fui obrigada a viver vai terminar como todas as outras sujeiras que nos cercam, com a culpa não sendo de ninguém.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Primeira quimioterapia.

É, o tempo é mesmo um dos deuses mais lindos e sábios. Ele leva as coisas de ruim, traz outras boas e assim a vida segue no seu ritmo, no seu ciclo, sem pressa. É surreal acreditar que no dia 20 de maio de 2013 eu estava em um centro cirúrgico colocando um cateter para passar a medicação da quimio. Eu era tão cheia de medo, cheia de expectativas, não conseguia mais pensar no futuro. Tinha medo de passar mal, de ficar careca, de não dar conta. É surreal escrever esse texto depois de ter feito duas horas de academia e estar com uma fome terrível, louca pra comer. Depois que eu fiz as quimios, comecei a dar valor em coisas simples. Coisas simples mesmo. É a melhor sensação do mundo beber água e não sentir gosto de nada! É maravilhoso conseguir correr e não passar mal ou então vestir as roupas de antes e mesmo assim ficar larga. É maravilhoso, MARAVILHOSO, tomar banho de chuva ou andar em um ônibus lotado sem máscara. É maravilhoso tocar meus cabelos na hora de dormir ou sentir ele encostando no meu pescoço mostrando que tá crescendo com força total. Esses exemplos são pra ilustrar a coisas mais incrível da vida: viver. Hoje eu olho pro meu passado e percebo o quão fútil eu era, me preocupando com coisas tão ridículas! O câncer foi um paizão que puxa a nossa orelha pra colocar a gente na linha. Sabe, é inevitável não pensar em morrer, mas quer saber a verdade? Eu não tinha medo de morrer, eu tinha era pena de morrer sem ter feito muita coisa do que eu queria ter feito. Hoje eu sou mais abusada. Acho que vou manter os cabelos curtos e pintar de alguma cor maneira, tipo o azul, minha cor favorita. Acho também que vou no Bob's pedir o maior e mais calórico lanche que tiver, ou então comer brigadeiro de panela até a barriga inchar. Quero passear de barco e mergulhar em alto mar, quero me libertar, afinal, estou livre. Estou livre da doença, das quimios, da careca, do inchaço, das pressões sociais e das bobeiras que as pessoas ficam dizendo que são importantes mas no fundo não são. Quero ir num restaurante caro, pedir frango e comer com as mãos. Hoje eu enxergo melhor, vejo melhor e sinto melhor. 1 ano depois, percebo o quanto eu amadureci, o quanto eu sofri e o quanto hoje, eu sou feliz. Eu tinha um diagnóstico de morte, hoje eu tenho é vida pra dar e distribuir! Eu sou a prova mais que viva que o câncer tem cura! Estou irradiando alegria! Parabéns pra mim!

quarta-feira, 7 de maio de 2014

1 ano de INCa

Nessa mesma hora do dia 07 de maio de 2013 eu estava sentada no ambulatório de oncologia esperando ser consultada para saber quais seriam os próximos passos para combater o câncer.  Eu me lembro perfeitamente de todo o dia, da roupa que eu estava e de como eu me senti. Essas coisas a gente nunca esquece. Já estava na casa do meu tio em Niterói, pois o diagnóstico já havia sido dado, mas ainda faltavam as lâminas do laboratório com o meu carocinho para levar pro inca. Era um dia chuvoso e frio, acordei às 4 da manhã, tomei café e peguei um ônibus com o meu tio até a central. Ainda estava escuro. Fomos pedindo informações até que avistei o inca pela primeira vez. É incrível, porque ele não se parece em nada com um hospital convencional. Eu me lembro que eu fiquei parada em frente ao inca, apenas observando e me fazendo prometer que nada me assustaria, que agora, ali seria a minha segunda casa. Quando eu entrei na fila para passar pela triagem (que é onde pegam todos os seus documentos e laudos e depois te encaminham para um médico avaliar se o seu caso pode ser tratado no inca), já tinham muitas pessoas na minha frente. Todos que assim como eu, acabaram de descobrir o câncer e iriam começar o tratamento. Eu me senti envergonhada por estar com câncer. Por mais que todo mundo estivesse passando pelo mesmo que eu, era uma sensação horrível lidar com isso, saber que eu tinha as mesmas chances de morrer que um velho de 80 anos. Na minha primeira consulta, o médico falava, falava, tentava me explicar o que era o linfoma, o tipo de tratamento, mas eu estava aérea e nem me lembro direito do rosto do médico. Fiquei indo quase todos os dias no inca depois disso para muitos exames. Eu tinha que anotar o que deveria ser feito e o local, porque sempre me perdia e esquecia de alguma coisa. Mas sempre com a ideia de adaptação, de que aquilo iria acabar, de que eu ficaria boa. A minha cirurgia para a colocação do cateter já estava marcada, assim como a primeira quimio. Mas isso é para o dia em que se completar 1 ano de tratamento. Eu ainda me assusto com a minha recuperação. 2013 foi uma década, eu vivi intensamente todos os dias e hoje, me sinto uma velha, contando uma história de muitos anos atrás. Sei lá, não sei se tenho vontade de esquecer de tudo que eu passei ou se é apenas uma forma de aliviar o peso que eu ainda carrego sob os meus ombros.