segunda-feira, 23 de dezembro de 2013

O dia da cura

16 de dezembro de 2013. Às vezes eu acho que essa data já estava desde sempre separada para mim. Coisas acontecem na vida da gente e a gente nem tem noção da proporção que essas coisas causam. Minha vida nunca foi fácil. Sempre fui cercada de problemas e de diversos tipos. Esse foi apenas mais um. No começo do ano eu nem tinha noção do que estava por vir em 2013 e agora, nessa última semana do ano, me paro pensando em como vou estar nessa mesma data do ano que vem. A vida é imprevisível e esse é o seu espetáculo. Essa é a graça. Seria muito chato se a gente soubesse tudo que vai acontecer. Eu enfim ouvi o que queria ouvir desde o princípio: "Você está livre, daqui em diante as consultas serão trimestrais e você fará algumas tomografias do tórax." Nossa, acho que faltou pouco sair pulando do hospital! Emoção, agradecimento, lembranças e um sentimento de alívio nunca sentido antes foi o que me definiu no momento. Eu não vou morrer! Eu vou ficar viva! Estou saudável! Meu corpo está forte! Oba, vou poder tomar sol! Não vou mais ficar careca! O corpo tá voltando ao normal! Voltei pra casa com a mão pra fora da janela sentindo o vento e percebendo que sentir é uma das maiores dádivas da vida. Não somente sentir o vento, mas o corpo, a alegria, o amor.. sentir que está vivo. Ano acabando, o outro chegando e tudo que eu mais quero é uma vida nova, diferente, sem erros, sem arrependimentos, sem ficar na vontade por nada. Quero um 2014 com muita saúde, amor, banhos de chuva, sorvetes gelados, viagens infindáveis, cachos no cabelo e muita, mas muuuuuuuuuita felicidade. Nos vemos por aí, numa outra notícia ou apenas numa outra postagem falando sobre a perfeição da vida. Obrigada, caro leitor por ter me acompanhado e querer me ver bem no decorrer do ano. Esse foi o seu milagre também. Essa vitória é de todos nós. UM BRINDE À VIDA!

segunda-feira, 16 de dezembro de 2013

Cotidiano

Viajar 4 horas, chegar no Rio de manhã bem cedinho, enfrentar uma fila grande pra colher sangue, tomar toddynho com pão na chapa na padaria, olhar os pombos na pracinha, ver gente careca o tempo todo, subir até o ambulatório, esperar ser chamada, sentir o cheiro de álcool, sentir o frio na barriga, sentir nervosismo, sair aliviada, comer salgadinho com suco de laranja, viajar, olhar a estrada, cochilar, sentir frio, acordar, cochilar de novo, sentir fome, acordar, desejar chegar em casa mais que tudo, olhar a estrada para ver se está chegando, ainda não, ainda não, falta pouco, chegar em casa. Tomar um banho, comer alguma coisa, deitar na cama, sentir as costas doerem, analisar o dia, pensar em que escrever e repassar as boas notícias que trago. Esse será meu dia amanhã. Como foram todos os outros até aqui. É mais cansativo e esgotante que parece. Tá acabando. Esse é o pensamento que nunca sai da minha mente antes da viagem. As vésperas são sempre a pior parte, porque eu nunca consigo descansar e sempre fico apreensiva com a estrada perigosa. Preciso relatar ao médico que tive 40 graus de febre semana passada. Não posso me esquecer disso. Também não dá pra esquecer de perguntar se de fato, tô livre. Se enfim, recebo a minha libertação, a minha remissão, a minha cura. Talvez dia 16/12/12 nunca saia da minha mente. Talvez eu chore. Talvez eu não tenha reação nenhuma, assim como o fim da quimioterapia. Talvez isso nem nunca tenha acontecido. Talvez tudo tenha sido somente um sonho ruim e essa é aquela parte que a gente sonha de manhã, quase acordando, e se lembra do sonho da noite toda. Hoje, sem sair de casa, nem ter a intenção de sair, me maquiei. Acho que não senti vontade de fazer isso durante todo o tratamento. Claro que saí maquiada, mas foi por livre e espontânea pressão das amigas. Hoje não. Hoje eu quis. Queria estar com o rosto corado, com a boca vermelha (sempre) e com a cara de serena. Tava olhando meu cabelo hoje e nas fotos do começo do ano, e é como se eu não fosse a mesma pessoa. Eu não me reconheço nas fotos de 8 meses atrás! Onde já se viu isso? Ainda me surpreendo comigo. As coisas estão caminhando, mas ainda falta muito para que algumas deem certo. Sei lá. Acho que não tô ligando muito pra isso agora. Ano que vem, isso tudo só vai ser lembrança e eu vou seguir vivendo do meu jeito. Tô satisfeita comigo hoje e em tudo que eu me tornei. Doa a quem doer. Sou realizada sendo a Ray.
Acho que não vou mais deixar meus cabelos crescerem.

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

O melhor tempo para ser feliz

É hoje. O dia em que você pode ser feliz é hoje. O ontem já passou e o amanhã é incerto. Então, nada de ficar idealizando a felicidade e sempre a colocar em alguma situação inalcançável. Hoje, pela primeira vez em todos esses meses vou poder dormir tranquila e respirar bem fundo a noite toda. Hoje, é o dia de agradecer mais uma vez a Ele pelo cuidado e pelo amor. Mesmo nos momentos mais difíceis, quando sorrir da situação se torna quase uma ironia, devemos agir assim. O sorriso atrai coisas boas, atrai bons amigos, atrai bondade e atrai sabe mais o que? FELICIDADE!
Quando você é feliz, sim, porque felicidade é mais que estar; é ser, você dorme agradecendo e amanhece agradecendo por mais um dia de vida. Você acha graça nas coisas mínimas e come com toda a satisfação do mundo mesmo que na sua mesa só tenha um pão dormido. Você evolui, passa a ser uma pessoa melhor, a acreditar na vida, na paz e no mundo. Quando você é feliz, a tristeza pode até aparecer mas rapidinho você manda ela embora, porque sabe que onde há luz as trevas não ficam. Quando você é feliz, a sua mente não tem tempo pra pensar em coisas ruins porque as coisas boas ocupam todo o espaço. Quando você é feliz, você até escreve um blog contando do seu câncer e mesmo assim se alegra com cada vitória. Hoje eu vejo que todos os degraus tão difíceis de subir, cooperavam para um bem maior: para a minha chegada no topo. Eu sou feliz. Eu também sou grata. Eu tenho dias tristes, mas também tenho dias muito felizes como o de hoje. Segundo a médica de tórax, NÃO HÁ NECESSIDADE DE BIÓPSIA DO PULMÃO PORQUE O QUE SE VÊ NA IMAGEM NÃO PASSA DE CICATRIZ! Palavras que descrevem o meu sentimento agora? Alívio, superação, fé, força de vontade, coragem e de novo e sempre, gratidão. Afinal, hoje é o dia em que pode-se fazer diferença. Amanhã não existe, porque amanhã já será o novo hoje.

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Antes de morrer

Nícollas, meu amigo de infância me lembrou de uma coisa que foi muito gostosa na época e que eu já nem me recordava mais. Nos nossos 14, 15 anos, tínhamos o hábito da leitura e era um grande vício. Líamos 4, 5 livros por ano. Sim, líamos os mesmos livros pra depois ficarmos falando horas sem parar deles. Nicollas tem uma casa muito grande, com um grande jardim e uma sala espaçosa. Como era gostoso ficar falando durante o dia todo sobre os livros! Sinto saudades dessa nossa fase. Hoje ele veio me lembrando de um livro que lemos, que por uma super coincidência, contava a historia de uma menina que estava lutando contra na leucemia. O nome do livro era "Antes de morrer". E entre os acontecimentos, Tessa, a menina da leucemia, listava uma série de coisas que gostaria de realizar antes da sua morte. Hoje eu percebo como essa personagem me marcou e como eu sou parecida com ela na forma de encarar o câncer. Vou deixar o link do livro aqui no formato PDF pra quem quiser conferir. Vocês vão ver muito de mim na Tessa e muito da Tessa em mim. (http://aspasandvirgulas.files.wordpress.com/2013/06/antes-de-morrer-jenny-downham.pdf)
O fato é que assim como a Tessa, eu tenho uma lista de coisas que quero fazer antes de morrer. Não, eu não estou fazendo drama, apenas sendo realista: a morte é a única certeza que temos na vida. Um dia ela vem você estando com câncer, gripado, dirigindo ou dormindo. Acostume-se com isso.
Vamos lá. Vou listar 10 coisas que quero fazer antes de morrer. Claro que quero fazer muito mais, mas não vou contar todos os meus segredos não.

1- Sair desfilando com uma camisa escrita "Eu venci o câncer"
2- Pular de pára-quedas
3- Aprender a dirigir (Isso é uma prioridade)
4- Ir à França
5- Fazer uma tatuagem
6- Dormir em rede numa casa construída sobre árvore
7- Gritar bem alto num lugar cheio de gente
8- Ter uma cobra de animal de estimação
9- Beber absinto e sentir o cheiro das estações
10- Pedir conselhos a uma criança

Prometo tentar cumprir tudo isso.






domingo, 1 de dezembro de 2013

A compreensão e a lembrança

O câncer me trouxe muitas descobertas, novas lições e constatações que aos poucos estão me transformando, construindo um novo eu. Parei de me perguntar: "E SE eu morrer?", para me perguntar todos os dias e a todo momento: "E SE eu viver?", e assim, da lista de coisas que eu não poderia mais fazer, cresce o rol de coisas que com certeza vou fazer no futuro. Isso me faz esquecer um pouco a impotência e a vulnerabilidade que eu sinto em relação à doença e me faz pensar mais nas lições que estou tirando desse período.

Não me sinto muito forte e nem tampouco pouco guerreira, porque no fundo sinto medo e insegurança, no fundo eu tô apavorada.... mas, pode parecer até engraçado, eu estou sorrindo mais, ouvindo mais, compreendendo melhor o significado das coisas e das pessoas... eu deixei de olhar e passei a enxergar.

Essa é uma das minhas grandes lições aprendidas: compreender o significado das pessoas. Em geral achamos que conhecemos as pessoas, mas no fundo o que fazemos é classificar quem conhecemos: família, amigos, colegas, inimigos, boas, ruins, feias, bonitas, etc... não compreendemos o real significado dessas pessoas em nossas vidas, aprendi que devemos tentar compreender o sentido que cada pessoa tem na vida da gente, feito isso, instintivamente consigo retribuir a energia e os sentimentos que o outro tem por mim. Enfim, aprendi que cada pessoa que faz parte da minha vida requer de mim um sentimento único e bilateral, descobrir qual é este sentimento é compreender o significado dessa pessoa em minha vida.

Aprendi também que de todos os meus bens, materiais ou não, o que eu tenho de mais valioso se chama "LEMBRANÇA", isso ninguém é capaz de nos tirar. Tenho tantas boas lembranças que não consigo me sentir sozinha. Posso estar em casa, no trabalho, num quarto de hospital, num centro cirúrgico, numa praia ou na estrada, elas sempre vão estar comigo, prontos para serem revividos, a qualquer momento, basta eu querer... e como nem tudo na vida eu posso escolher, começo a dar um valor muito grande a tudo isso. Cada mensagem que eu recebo não me fazem bem apenas pelas palavras de carinho ou pelas manifestações de afeto, mas também (e principalmente) porque me dão a oportunidade de lembrar das pessoas.