sexta-feira, 29 de novembro de 2013

A vida é bem mais que fazer escolhas, porque um monte de coisas acontecem na vida da gente mesmo a gente não querendo ou escolhendo e somos obrigados a conviver com essas coisas. Esta foi a lição que eu tirei do dia de hoje. Ninguém pede pra ficar doente, muito menos eu, que sempre fui tão alegre e vivia esbanjando saúde por aí. Estava aflita desde o dia em que fui fazer o exame. Hoje então foi o nível máximo de aflição quando a médica disse: "Então, Rayanna..." Gelei. O Resultado do PET foi inconclusivo, pois mesmo depois das 12 sessões de quimioterapia, existem evidências de que há algo ainda no meu pulmão direito que o raio-x não foi capaz de ver mas o PET sim. Há uma chance de ser câncer ainda no pulmão e eu ser submetida a mais sessões de quimioterapia (meu maior medo) e um transplante de medula óssea. Farei uma biópsia para confirmar ou (espero que sim) para comprovar que o que se vê na imagem não é nada mais que cicatriz. Na hora que ouvi isso, logo me veio a mente: "Poxa, todo o meu esforço durante esses meses foi em vão?" e minutos depois, com calma consegui perceber que tudo que eu fiz e vivi valeu a pena. Foi o preço que eu tive que pagar para estar viva e eu me lembro do começo do tratamento quando determinei a mim mesma que de câncer eu não morreria. Eu fico me perguntando e tentando achar alguma resposta pra justificar tudo isso que eu tô passando. Por que eu? Tantas pessoas aleatórias pra ter câncer e logo eu fui ter? Logo nos meus 22 anos? Na fase das festas, namoros e curtição? Ainda não sei a resposta e nem sei se existe resposta pra isso. O fato é que eu já venci uma batalha dessa guerra e logo logo será anunciado o seu fim.

quarta-feira, 27 de novembro de 2013

A luta sempre continua.

Estou há dois dias de relembrar aquilo que me marcou e que eu faria questão de esquecer: o hospital. Vou mais uma vez viajar de madrugada, chegar no inca de jejum, enfrentar uma fila enorme pra fazer exame de sangue, sentir o cheiro insuportável do álcool durante o exame, subir sete andares, fazer a manutenção do cateter e depois esperar algumas horas até ser chamada no consultório. Me imagino andando pelo corredor C sala 3 bem lentamente, com o coração na mão só querendo ouvir uma coisa da Dr. Thaís: Ray, seu PET não deu nada! Ufa, eu acho que ficaria sem reação. Não tô com medo, tô aflita. Não tenho medo do câncer, tenho medo é do tratamento. Não quero ficar enjoada de novo, nem vomitar, nem ficar cansada, muito menos ficar careca. Chega, já sofri o suficiente. O fato é que a luta não terminou ainda. E é bom mesmo que não tenha terminado pra que eu não me esqueça de tudo que eu passei e volte a comodidade de sempre. Bom, quero voltar com a melhor notícia do ano e quero todo mundo torcendo por mim.

sexta-feira, 8 de novembro de 2013

Quando Horácio escreveu em seu poema a frase “Carpe diem”, ele certamente imaginou as milhares de pessoas que séculos depois teriam que conviver com o pós câncer.
Sim, porque não há alguém que valorize mais o brocardo do que aquele que um dia enfrentou a doença.
É como se fôssemos de alguma maneira chacoalhados pelo mundo real dizendo: “Espera lá, faça planos pra hoje, o amanhã é comigo!”
Todo mundo faz hemogramas, papanicolau, testes de esforço... Então por que motivos tanta ansiedade? O medo de o câncer voltar é pior que o próprio câncer. O medo de contar novamente a notícia a quem amamos, o medo de sentir dor, enjoo, constipação, de ver os cabelos caírem mesmo que as pessoas digam sem graça que “cabelo é de menos”, o medo de uma toxicidade, o medo de não dar certo de novo, o medo de o futuro não chegar...
Não há nada tão angustiante quanto a semana que antecede os exames. Você se pega pensando neles no momento mais banal: amarrando os tênis, estacionando o carro, no meio da refeição, feliz por algo... Daí suplica pra cair no sono e esquecer aquilo tudo e adivinha? Você sonha com os ditos cujos (perdi as contas de quantas vezes chorei e sorri em sonhos). Ao acordar, você tenta interpretá-los pra se convencer que, oras, vai dar tudo certo.
A vontade de continuar fazendo planos e realizá-los continua. A alegria de poder ser igual a todo mundo e ter como pro-ble-mão hora extra no trabalho, vizinho barulhento e trânsito às seis da tarde...
Enquanto o corpo é tomado de adrenalina (e aqui eu falo no mau sentido), você torce, reza, ora e implora para que as imagens mostrem exatamente o que foi visto da última vez. Nunca na vida você quis tanto rotina e mesmice. Enquanto as mãos suam e as pernas tremem, você anseia para que seus órgãos estejam preservados e sadios e, após o sorrisinho do médico, você já sabe...
Um laudo normal é como se fosse um troféu. E quando você ganha esse troféu, tudo o que mais quer é ostentá-lo. Volta a planejar a viagem para os Estados Unidos ou Paris, a volta ao trabalho, a academia, aniversário, compra de uma sandália pro verão e adivinha só? O itinerário do final de semana.
E daí você liga pra família e pros amigos e conta a notícia, ouvindo um sonoro “Eu já sabia” (com todo o mar de incertezas que rondaram a mente antes de tocar o telefone). Choros, gritinhos, sorrisos. Está aberta a temporada de esquisitices do momento “continuo em remissão, rumo à cura.

Quero dizer que o meu tratamento, além de medicações, foi um aprendizado, uma escola da vida. Fiz muitas amizades, ri muito, chorei, brinquei, tive meus dias de sofrimento, mas não se compara à força, à fé e acima de tudo à vontade de vencer, de viver.
Quero poder ajudar, nem que seja só com palavras, mas para transmitir o que eu senti e o que me fez bem durante esse período. Quero poder mostrar que na vida temos duas escolhas a fazer: ou lutamos para acabar com a doença ou deixamos que ela nos tenha e acabe com a gente. Eu optei pela primeira. Ter a doença, assumi-la, e com fé e força, acabar com ela.
Hoje sei que aprendi muita coisa. Vejo a vida, as pessoas de outra forma. Aprendi a ouvir mais, perdoar mais, ajudar mais e acima de tudo, viver mais. Eu tive o câncer, mas ele não me teve.