quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Superação

Tô no meu limite. Lutando contra o corpo. Sinto que estou subindo um monte muito alto e não tenho mais forças pra chegar ao topo. Cada degrau agora é motivo de alegria e superação. Acordar cedo pra ir à academia? Superação. Comer mesmo enjoada? Superação. Engolir o choro e aceitar o que a vida tá mandando? Superação. A minha vida se resume nessa palavra agora. Não vou fraquejar agora no finalzinho dessa tempestade, mas chega uma hora que cansa. Cada dia mais vejo que as coisas estão dando certo. É incrível, mas as minhas maiores conquistas vieram justamente no período do câncer. Fazendo um balanço de tudo que eu passei, posso afirmar que isso tudo me fortaleceu, que eu amadureci, que hoje eu encaro os problemas de uma outra forma. Sinto que posso conquistar tudo que eu desejo. Que nenhuma dificuldade vai me impedir de avançar. Tenho todos os sonhos do mundo e hoje eu acordei com a deliciosa sensação que posso transformar todos eles em realidade.

segunda-feira, 26 de agosto de 2013

Quimio 8

Vomitei de uma forma que me assustou. Tudo ia bem até o fim da quimio. Priscila estava comigo, segurando a minha mão e de repente, começo a sentir uma ânsia terrível de vômito e começo a perder a cor. Sabia que coisa boa não estava por vir. Corri para o banheiro e realmente percebi que não estava bem. Vomitei. Vomitei muito. Vomitei até sentir o estômago dobrar. Saí do INCA e adivinha? Vomitei mais. Já com o estômago vazio, sem nada pra colocar pra fora, decidi comer alguma coisa na esperança que ajudasse. Comi dois pedaços de batata e uma fatia de tomate com um suco de laranja. Em menos de 20 minutos já estava colocando tudo pra fora de novo. Foi assim até Teresópolis. Hoje não foi um dia fácil. Estar escrevendo aqui depois disso tudo tá sendo uma superação pra mim. Tô com medo. Tô com medo de passar mal assim até o fim do tratamento. Meu corpo tá frágil. Hoje mais do que nunca percebi o quanto somos frágeis, o quanto somos vulneráveis a tudo. Cada dia tá sendo uma descoberta. Sei lá, acho que tô com vontade de chorar, de descontar a raiva por estar passando por isso, por sentir saudades de jogar meus cachos pro lado, com saudades de entrar naquela calça jeans maravilhosa. Tá acabando, tá acabando. Não vou me desesperar, não quero me desesperar, não preciso me desesperar.

segunda-feira, 19 de agosto de 2013

Academia

Hoje foi meu primeiro dia na academia. Fiz 15 minutos de bicicleta e 20 de esteira. Não tô fazendo nada pesado até porque ainda vou ter que me adaptar a essa nova rotina. Ganhei esse presente de uma amiga que também é a dona da academia. Foi legal, eu sempre gostei de fazer exercícios mas nunca tinha pegado firme como agora. Acho que isso só vai me ajudar a voltar pro corpo que eu tinha, ou talvez, até me deixar melhor que antes. Fui carequinha pois queria ver a reação das pessoas ao me ver assim. Algumas fingiram indiferença, outras vieram conversar comigo mas desviavam o olhar pra careca e algumas, que já sabem de tudo, simplesmente disseram um "Seja bem vinda". É bom se sentir comum e igual a todo mundo. Vamos lá. A balança está mostrando exatos 71 quilos, 10 a mais de quando eu comecei o tratamento. Agora é contagem regressiva pra perder esses danadinhos!

sexta-feira, 16 de agosto de 2013

Quimio 7

E eu achando que estaria livre dos efeitos da quimio 7.. me enganei, eles apenas atrasaram. É o que eu tenho falado. Quanto mais sessões, mais o corpo fica fraco e aguenta menos as coisas. Não quis nem saber de efeito colateral. Arrumei as minhas malas e fui passar uns dias com os amigos da faculdade em Campos. Saí com eles, comi besteiras, dei muitas risadas e muuuitos abraços. Acho que precisava disso pra renovar as minhas forças, pra mostrar que tá acabando e daqui a pouco vou ter eles todos os dias. Um dos meus medos de quando comecei o tratamento era exatamente ficar tanto tempo fora da faculdade e não ver mais eles. Tô percebendo que isso não vai acontecer e que nada tá me impedindo de voltar a estudar mês que vem. Vejo tanta gente reclamando de final de período, de noites mal dormidas por conta das provas e eu fico aqui, com os olhos brilhando querendo tudo isso de novo na minha vida. A gente tá acostumado a desejar aquilo que não podemos ter, isso é mais uma coisa que tô aprendendo nessa fase. A ser grata com aquilo que tenho nas minhas mãos. Temos que parar de achar que a grama do vizinho é sempre a mais verde, porque não é! Eu fiquei toda feliz em perceber que meus amigos sentem a minha falta assim como eu sinto a deles. É bom saber que você é querida. Aos poucos a minha vida tá voltando ao normal. Daqui a pouco isso tudo vai ficar no passado e eu só vou lembrar sem doer o coração. Isso tudo me alegra tanto que até me faz esquecer dos enjoos e da fraqueza. Tá valendo a pena viver.

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

Força na peruca!

Hoje durante as horas em que estive sentada na cadeira recebendo a medicação da quimio 7, repensei muita coisa na minha vida. Em como a vida é imprevisível, em como as coisas mudam, em como hoje podemos estar aqui e amanhã não mais. Eu acho que todo mundo que tem câncer ou uma doença tão grave quanto, na hora que recebe o diagnóstico pensa: "Mas por que logo comigo? O que eu fiz de errado?" Fiquei me culpando durante meses tentando entender, descobrir um descuido meu que fizesse sentido pra explicar o câncer, e percebi que isso tudo é maior que eu e não dava pra controlar. Parei de me culpar. Parei de me culpar porque isso não tava me fazendo bem e entendi, por mais duro que seja, que eu preciso passar por isso. Sinto que estou num campo de batalha, quase saindo, quase deixando os mortos pra trás, olhando bem onde eu piso pra não explodir nenhuma bomba sob os meus pés, deixando as armas, as mágoas, as tristezas pra trás e pensando no futuro. Estou andando em direção ao fim desse ciclo mas as marcas da guerra me acompanham. Não tem problema. Aprendi mais uma lição com o câncer. Quem me ama, me ama de qualquer modo. Confesso que me espanto quando vejo alguém dizer que eu tô bonita. Quase não acreditava nisso mas hoje eu acredito, pois isso é amor. Entendi o que significa a palavra companheirismo. Isso me faz bem. Me faz bem saber que sou amada e querida até no meu momento mais crítico. Tá, dê um desconto pras minhas futilidades físicas. Tenho 21 anos e sou vaidosa, poxa! Durante a semana, também pensei no que é ser forte. Acredite: eu encaro um câncer mas não consigo olhar nos olhos de algumas pessoas por me abalarem de uma tal forma que me deixam sem coragem. O que é a força? A minha única alternativa era ser forte pra vencer essa fase. Se eu não fosse forte, não valeria a pena lutar, pois eu já teria entregado os pontos, desistido de mim mesma. Amo a vida demais pra não lutar por ela. Essa semana, vou rever meus amigos da faculdade. Parece besteira, mas fico com os olhos cheios d'água só de imaginar como vai ser abraçar e beijar todo mundo. Estarei perto de pessoas que eu amo e isso me faz bem. Tô evitando tudo que não me deixa feliz. Eu acho que é um pouco de relaxamento da minha parte mas tô me dando esse presente. Aprendi muita coisa depois que fiquei doente. Principalmente que a vida não é um mar de rosas e que eu sempre vou ter problemas. Talvez até mais graves que esse. Mas eu acho que prefiro enfrentar todos do que ficar se lamentando pensando no "e se" que todo mundo pensa. Eu não sou todo mundo. Incrível como vovó Lúcia vive falando isso pra mim. Aprendi valores com a minha família que levarei para a vida toda. Mas, em algumas coisas eu sou igual a todo mundo. Cometo erros. Mas os erros também fazem parte da gente. Hoje eu me sinto honrada de ter a coragem que tive em enfrentar tudo o que enfrentei e fico feliz por ter amadurecido tanto. Foi a primeira surra que levei da vida e a primeira vez, a gente nunca esquece. Quer saber se eu passaria por isso isso de novo? Só se não tivesse outra alternativa mas eu seria a mesma menina de hoje. Talvez com mais cicatrizes de guerra, mas já saberia muita coisa que hoje tô tendo que descobrir sozinha. Me aventurei nos caminhos que a vida me fez andar e não me arrependo de ter deixado uma casa fixa pra trás. Ela que fique pra lá. Não pretendo voltar. Agora, é pensar daqui pra frente. Ganhei mais lenços essa semana e realmente estou gostando da fase careca. Meu cabelo, mesmo estando abaixo de 1 cm voltou a cair e acho que vou ficar careca de verdade, daquele tipo que brilha na luz. Não to ligando. Aposto que mesmo assim vai ter gente me achando bonita. A quimio 7 até agora não me deu problemas. Já me acostumei com os efeitos colaterais. Amanhã eu tô nova em folha. Não engordei mais desde a última consulta. Sinal que a retenção de líquidos tá dando uma folguinha pra mim. Vou começar a fazer exercícios numa academia. Ganhei esse presentão de uma amiga. Estou animada pois sei que é só uma fase e daqui a pouco e volto pro meu corpo de sempre, talvez até mais linda que antes. Tá, pelo menos eu tenho bom humor. Por hoje é só. O resto dos meus pensamentos é segredo.

terça-feira, 6 de agosto de 2013

A menina de hoje.

"Coragem, menina! Vai desanimar agora? Agora que já passou da metade do tratamento? Não, você é forte, Ray." Repito essa frase ao acordar todos os dias pra me convencer que eu aguento. Que receber tantas drogas no corpo não estão me matando, que isso vai passar, que daqui uns dias será apenas uma lembrança. Quero me convencer que as pessoas que se afastaram de mim na verdade nunca precisaram estar perto, estou me convencendo que a vida fez o melhor pra mim, me convencendo que tudo tem um propósito, me convencendo que meu corpo não vai adoecer, que a vida vai voltar ao normal, que meu peso vai diminuir, que meu cabelo vai voltar a crescer, que vou voltar a ser a menina de sempre, mas espera. Não tem como voltar a ser a menina de sempre. A menina de sempre morreu ou está adormecida. A menina de sempre não teve um câncer. A menina de sempre não chorava tanto. A menina de sempre não era tão forte. A menina de sempre achava que era acompanhada mas era sozinha. A menina de sempre entrou para as belas histórias de bela adormecida. Pra sempre. A menina de hoje continua chorando, mas sabe que é uma forma de aliviar a tensão. A menina de hoje é sozinha mas nunca só. A menina de hoje não tem somente 21 anos, já carrega marcas de uma vida toda nos olhos cansados e no corpo marcado pela quimioterapia. A menina de hoje se dá valor, reconhece e agradece a vida. A menina de hoje pensa no futuro mas vive o hoje. Deixa o futuro pra uma outra menina falar sobre ele.